terça-feira, novembro 20, 2012

Gideão e os seus Trezentos, poema de Alfredo Mignac



Gideão e os seus Trezentos

Alfredo Mignac

Era no tempo dos juízes. Todo o povo
desprezara a Jeová. Tinha ido, de novo,
após o deus Baal e dos seus ímpios reis,
do Senhor infringindo as mais sagradas leis!
Israel esquecera os grandes benefícios
que lhe fizera Deus, tirando-o dos egípcios,
onde comera o pão amargo do desterro,
onde gemera sob os látegos de ferro,
onde tudo era vil, onde tudo era morte!

Quanto tempo passou! E agora a mesma sorte
é a de Israel cativo às mãos de Midiã,
sofrendo a mesma dor, em meio ao mesmo afã!
Mas Deus, que sempre vê dos seus o sofrimento,
escuta, da alma aflita, o lúgubre lamento,
pronto para salvar, pronto para servir,
quis ao encontro do seu povo outra vez ir!

Estriando de luz os umbrais do poente,
o sol vai se imergindo, lenta e lentamente,
nas chamas do braseiro enorme que acendeu!
No lagar malha o trigo um moço forte – hebreu.
Parece que, trazendo a luz do sol brilhante,
nas vestes divinais, - um anjo, nesse instante,
aparece a Gideão e o chama pressuroso,
para Israel salvar, indefeso, inditoso!
- Não temas! O Senhor das graças infinitas,
seu povo salvará das mãos dos midianitas!
Vai! Contigo serei por onde quer que fores:
no deserto ou no monte; entre espinhos ou flores;
pelas trevas do vale ou cavernas de horror!

Depois de provas ter que era mesmo o Senhor,
Gideão conclama o povo à guerra decisiva!
Erguendo agora a fronte há pouco então cativa,
trinta mil se dispõem marchar contra o inimigo
e dar-lhe o merecido e mais justo castigo!
Madrugada... Em Moré, no oiteiro, perto ao monte
as tendas de Midiã... Israel, bem junto à fonte
de Haró, se acampa ousado!
Outra vez, com desvelo,
Jeová seu servo instrui, lançando-lhe este apelo:
- Para que tanta gente? Embora tanto seja
o inimigo que corre, indômito, à peleja!
Dize ao povo que volte aquele que quiser,
pois para Deus não é o número mister.
A sua presunção o levará a crer
que a vitória ganhou o seu próprio poder!
Regressaram ao lar milhares. Entretanto,
dez mil firmaram pé. Jeová, mais uma vez,
quis a escolha fazer. Assim quis, assim fez:
- Que o povo às águas desça. E quantos as lamberem
como o cão, - separa-os! Porém, os que beberem
abaixados, com as mãos, - por certo não irão.
Porque o gesto bem prova o fraco coração!
Trezentos foram só que as armas não largaram
para a sede matar. Trezentos que ficaram,
dispostos para a luta em prol da Liberdade!
Avançaram! Na destra - o Facho da Verdade;
vasos de barro – à esquerda, - a fraqueza inimiga
que a justiça de Deus esmaga e desabriga!
Embocando os clarins das hostes divinais,
promovem confusão por entre os arraiais!
Espada contra espada, a si mesmos ferindo,
debandam pelo vale, as montanhas subindo!

Trezentos! – Quais serão os de hoje, separados,
para a Luta enfrentar como fiéis soldados?
Trezentos! – frente ao muro agonizante e triste,
com o Clarão da Verdade e a Espada sempre em riste!
Trezentos! – contemplando os arraiais da orgia,
onde o pecado afoga e a carne tripudia!
Trezentos! – avançai! e as almas cristalinas
ganhai para o Senhor! Por montes e colinas,
por vales e vergéis, correi, ó gideonitas,
e achareis ouro e pedrarias e pepitas
de alto preço e valor, para o Engaste bonito
da Coroa de Cristo – o Gideão Bendito!

Do livro Horas Vibrantes (1939)

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